29 SETEMBRO 21h30 | GRACIOSA | Centro Cultural da Graciosa

30 SETEMBRO 21h30 | FAIAL | Teatro Faialense

1 OUTUBRO 21h30 | S. MIGUEL | Teatro Ribeiragrandense

 

Recital de CANTO E PIANO

Filipa Lã, soprano

Francisco Monteiro, piano

 

 

 

 Programa

 

 

Eurico Carrapatoso
Cinco canciones para piano e voz emocionada (poesia de Garcia Lorca)
Preludio de la noche
Canción (primera)
Rasgos
Canción (segunda)
Pórtico

 

Manuel de Falla
Siete Canciones Populares Españolas
El paño moruno
Seguidilla Murciana
Asturiana
Jota
Nana
Canción
Polo

 

Dmitri Chostakovich
Sátiras “Esboços do passado” sobre textos de Sacha Chorny (Alexander Ciornii)
A um crítico
Acordar da primavera
Os descendentes
O mal-entendido
Sonata Kreutzer

 

António Pinho Vargas                       
Nove canções de António Ramos Rosa
Não tenho lágrimas
Não era um barco
Ligado a uma sombra
Um tremor de proa
Tacteio sobre o branco
Como quem levanta
Onde a força do vento ... porque esse arvoredo ... um gesto que procura
É por aqui, mas o caminho é trémulo
O que escrevo por vezes

 

 

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FILIPA LÃ

Iniciou os seus estudos musicais no Conservatório Regional de Música da Covilhã. Terminou o curso de canto  no Conservatório de Musica de Coimbra, com a classificação de 18 valores na classe da professora Maria José Nogueira. Prosseguiu os seus estudos na Guildhall School of Music and Drama, em Londres, e concluiu o Mestrado em Canto no Departamento de Música da Universidade de Sheffield, Inglaterra. Nessa mesma universidade, como bolseira da Fundação para a Ciência e Tecnologia, iniciou o Doutoramento em Canto, em 2005.  Para além da sua actividade como solista, dedicou-se à investigação do comportamento do aparelho vocal na performance – aplicando os conhecimentos biomédicos e da  fisiologia – sobre o qual já se apresentou em várias conferências nos EUA, Áustria e Reino Unido.

FRANCISCO MONTEIRO

Iniciou os estudos de piano com Maria Helena Aguiar e Helena Costa, tendo mais tarde ingressado no Conservatório de Música do Porto onde terminou o Curso Superior de Piano com 19 valores. Estudou ainda Composição e Análise com Cândido Lima, Álvaro Salazar (Porto) e Gottfried Scholz (Viena), Direcção de Orquestra com Jean-Claude Hartemann (Paris) e Interpretação Musical com Marie-Françoise Bucquet (Paris). É diplomado pela Escola Superior de Música de Viena, pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (Mestrado em Ciências Musicais) e pela Universidade de Sheffield - Reino Unido (Doutoramento em Música Contemporânea). A sua actividade como intérprete reparte-se entre apresentações a solo, em diversas formações de câmara e nos grupos «Música Nova», «Oficina Musical» e «Grupo de Música Contemporânea de Lisboa». É Professor Adjunto na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto.


Eurico Carrapatoso (Mirandela, 1962), apesar de ter começado os seus estudos musicais tarde, após a conclusão de uma Licenciatura em História, tem hoje uma obra imensa abarcando variadíssimos géneros musicais. Marcado por personalidades musicais tão diversas como Constança Capdeville, Jorge Peixinho e Fernando Lopes-Graça, dos quais foi aluno, a sua obra tem tido um grande impacto junto do público não só pelo humor que imprime a algumas das suas composições, como por vectores como a valorização da tradição musical, a identidade portuguesa e o recurso à tonalidade. Cinco canciones para piano e voz emocionada é uma obra de 1998 representativa de um estilo “enxuto”, segundo a expressão utilizada pelo compositor.

 

Manuel de Falla (1876-1946) foi um dos músicos espanhóis mais marcantes da 1ª metade do século XX. Na sua obra encontram-se alguns dos elementos que preocuparam os compositores dessa época como: a apropriação do vocabulário musical do folclore, a revificação da música do passado e uma nova perspectiva da tonalidade. Por outro, é notória a influência que os compositores franceses, em particular Debussy, exerceram na sua música. Nas Siete Canciones Populares Españolas (1914), a utilização de elementos da música popular espanhola surge constantemente fundida com uma linguagem contemporânea. Assim, na primeira canção, El paño moruno, Falla explora, de maneira inovadora, a escala andaluza. Na Seguidilla Murciana, o efeito percutivo é consequência das harmonias realizadas pela parte instrumental. Na Asturiana todo o jogo harmónico que apoia o canto circula à volta de uma mesma nota. Na Jota, dança popular andaluza, o motivo rítmico característico, expresso na voz e no seu acompanhamento, é acompanhado por modulações inesperadas. Nana, canção de embalar, desenrola-se dentro da maior economia de meios com a melodia a ser apoiada por uma nota pedal (nota sustida obsessivamente) que entra sempre a contratempo. Canción assenta essencialmente em três planos rítmicos, surgindo a voz frequentemente em desacordo com o acompanhamento instrumental. A última peça, Polo, é uma canção popular andaluza marcada por contrastes muito típicos dessa música, aqui acentuados pelo carácter percutivo do piano em oposição à ornamentação vocal.A popularidade que esta obra obteve veio a reflectir-se em numerosas transcrições, algumas orquestrais como as de Luciano Berio e de Ernesto Halffter.

 

Os cinco poemas de Sátiras “Esboços do passado”, compostos por Chostakovitch (1906-1975) em 1960, são retirados de uma obra que o poeta russo Sasha Chorny, que saiu da Rússia em 1918 por se opôr à política vigente, escreveu entre 1908-1909. A razão do interesse do compositor por estes poemas poderá ter residido numa certa empatia que sentiu pelas opiniões do poeta, nomeadamente sobre a atitude hipócrita, auto-indulgente e paternalista dos intelectuais do seu país face ao regime, expressas nesta obra de forma ambígua para evitar a censura do regime. Segundo a célebre cantora russa Galina Vishnevskaya, a quem a obra é dedicada, o subtítulo, Esboços do passado, teria sido um subterfúgio do compositor para evitar que o texto fosse interpretado como uma crítica sua à situação política coeva. O primeiro poema “A um crítico” alude ao papel ambíguo do autor no que respeita às palavras que coloca nos seus personagens, salientando que o que eles dizem pode ser ou não o que ele, autor, pensa. Esta ideia é apresentada pela soprano de uma forma quase declamatória, sobre um ritmo uniforme, sendo a ambiguidade do texto reforçada pela incerteza tonal.
Em Acordar da primavera, o poeta celebra a esperança trazida pela nova estação. O sentido de urgência que é transmitido advém da ausência de pausas e do andamento apressado da parte do piano. O poema Os Descendentes assume um papel central na obra e também de continuidade com o texto anterior quando preconiza que melhores tempos surgirão no futuro. A música sublinha esta ideia, embora com um carácter de exasperação, ao utilizar o ritmo ternário da valsa de uma forma obstinada e num andamento agitado. O mal-entendido assenta numa falsa interpretação de um dandy ao imaginar que as palavras ouvidas a uma mulher de quem se aproxima lhe são dirigidas. Nesta poema há uma alusão à forma enganosa que o discurso político exerceu na intelligentsia russa. Esta ideia é corroborada musicalmente através do tom melodioso que se vai perdendo ao longo da canção. A Sonata Kreutzer regressa à metáfora ao colocar um homem e uma mulher numa situação de amantes, simbolizando a intelligentsia e o povo numa falsa comunhão. No seu todo, a obra, pelo seu tom quase de farsa, reforçada pela expressão vocal, sugere por vezes um ambiente de music-hall.

 

António Pinho Vargas (Vila Nova de Gaia, 1951), figura que se tornou primeiramente conhecida como pianista de jazz, fez os seus estudos de composição em Roterdão (1990) e é actualmente professor desta disciplina na Escola Superior de Música de Lisboa. Mantendo em paralelo a sua actividade musical nos domínios do jazz e da música erudita, conta hoje, no âmbito da última, com uma obra vasta e prolífica com composições para teatro e cinema, música de câmara, instrumentos solo, coro, orquestra e ópera. A sua dupla condição de músico em domínios distintos, mas que ao longo da sua história sempre se contaminaram, deixou marcas na sua obra. É o que se verifica nas Nove canções de António Ramos Rosa (1995) — obra encomendada pelos Encontros Musicais Primavera organizados pela Associação Cultural Convívio de Guimarães — que é atravessada por uma linguagem ecléctica revelando tipologias musicais mais e menos tradicionais da história da música ocidental. Tal como refere o compositor: “O problema para mim é o discurso, não o vocabulário.” São exemplo do que acabámos de referir  as canções “Não tenho lágrimas” e “Ligado a uma sombra”.

Maria José Artiaga

 

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