30 MAR 21h30 | TERCEIRA | Igreja de Nossa Senhora da Guia
31 MAR 21h30 | S. MIGUEL | Igreja do Colégio

CORO CASA DA MÚSICA

Jonathan Ayerst, direcção

 

Programa

 

I

 

Johannes Brahms

Dois Motetos, op.74 (1877 e 1863-64; c.16min.)

1. Warum ist das Licht gegeben dem Mühseligen?

2. O Heiland, reiß die Himmel auf

 

Claude Debussy

Trois Chansons (1898/1908/1898; c.6min.)

1. Dieu! qu’il la fait bon regarder!

2. Quant j’ai ouy le tabourin

3. Yver, vous n’estes qu’un villain

 

Galina Grigorjeva

Ao partir (1999; c.22min.)

1. Senhor tem piedade: Andante

2. Ode 1: Placido

3. Odes 7 e 8: Con rigore

4. Kondakion: Elevato

5.Ikos: Sostenuto

II

 

Arvo Pärt

Magnificat (1989; c.7min.)

 

Arvo Pärt

Nunc Dimittis (2001; c.8min.)

 

Fernando Lopes-Graça

Três Canções Corais (1946; c.8min.)

1. Rústico

2. Epitáfio

3. Ode

 

 

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CORO CASA DA MÚSICA

Paul Hillier, maestro titular

 

O Coro Casa da Música deu o seu primeiro concerto em Outubro de 2009 sob a direcção do seu maestro titular, Paul Hillier, referência incontornável da música coral a nível internacional. Com uma actividade regular ao longo de todo o ano, o Coro Casa da Música é formado por 24 cantores e tem um papel determinante na divulgação do repertório a cappella e para coro e orquestra, abarcando diversos períodos históricos desde a Renascença até à actualidade. A sua colaboração com os diversos agrupamentos residentes enriquece a programação da Casa da Música.
Em 2009/10, é dirigido pelos maestros James Wood, Simon Carrington, Laurence Cummings, Andrew Bisantz, Kaspars Putniņš, Andrew Parrott, Antonio Florio, Christoph König, Peter Rundel e Paul Hillier. Entre os concertos corais sinfónicos, o Coro Casa da Música interpreta a Sinfonia Coral de Beethoven, o Requiem à memória de Camões de Bomtempo, a 3ª Sinfonia de Mahler, entre outras obras com orquestra. Em programas a cappella, destaca-se a presença regular da música portuguesa, assim como uma grande variedade de concertos temáticos. Tem interpretado diversas obras em estreia nacional e fez a estreia mundial de Motetes de Carlo Gesualdo na versão reconstruída por James Wood. Em Setembro de 2010 fez a sua primeira digressão apresentando-se em Lisboa, Alcobaça, Tomar e Batalha, no âmbito da Rota dos Mosteiros Portugueses Património da Humanidade. Em Novembro apresentou-se no Mosteiro de Arouca e em Dezembro viajou até Espanha para um concerto conjunto com a Orquestra Barroca Casa da Música no Festival de Música Antiga de Úbeda y Baeza. Em Abril de 2011 apresenta-se no Festival Handel de Londres novamente com a Orquestra Barroca Casa da Música.

 

Sopranos

Birgit Wegemann

Eva Braga Simões

Rita Venda

Joana Pereira

Ângela Alves

Contraltos

Joana Valente

Brígida Silva

Nélia Gonçalves

Joana Guimarães

Ana dos Santos

Tenores

Pedro Figueira

Helder Bento

Luis Toscano

Vitor Sousa

Pedro Silva Marques

 

Baixos

Ricardo Torres

Luiz Filipe Marques

Pedro Guedes Marques

Pedro Lopes

João Barros Silva

 

JOHANNES BRAHMS

Hamburgo, 7 de Maio de 1833

Viena, 3 de Abril de 1897

 

Dois Motetos, op.74

 

Brahms foi um dos mais significativos representantes do Romantismo Alemão do século XIX, desenvolvendo uma linguagem única e inconfundível, na qual elementos formais e estilísticos do Barroco e do Classicismo se fundem numa pujante afirmação instrumental e coral. Autor de obras em quase todos os géneros do seu tempo (à excepção da ópera), foi um prolífico compositor de obras corais, incluindo peças sem acompanhamento instrumental. E se é certo que a sua grande obra para coro é o monumental Requiem Alemão op.45 (1857-68), deve-se sublinhar a importância e qualidade extremas das suas peças a cappella. Brahms tinha grande e genuíno interesse pela música e práticas musicais do passado. Um dos seus objectivos era o de integrar nas suas obras técnicas de tempos prévios, especialmente do período Barroco ou ainda de períodos mais longínquos. Nesse sentido, estudou música do passado, contribuiu para a sua edição e compôs vários exercícios de técnica de composição em estilos e géneros antigos, incluindo Sarabandas, Gigas, Gavotas, e, sobretudo, várias formas de contraponto. Quanto à música para coro, as suas grandes fontes de estudo e inspiração eram Bach, Palestrina (de quem copiou a Missa Papae Marcelli na íntegra) e Schutz, tendo composto vários madrigais e dez motetos.

O termo “Moteto” surgiu durante o século XIII, especialmente em territórios de língua francesa, designando originariamente um género de composições corais nas quais um “cantus prius factus” pré-definido (o tenor) era seguido de uma outra voz composta originalmente. A esta voz podiam ainda seguir-se uma terceira (triplum) ou uma quarta (quadruplum), construindo mais ou menos complexas combinações polifónicas. A redescoberta e o estudo de motetos desse período (século XIII) deu-se na segunda metade do século XIX, fenómeno que interessou não só Brahms como muitos outros compositores, incluindo Peter Cornelius, Verdi, Liszt, Strauss, Reger e Bruckner.

Nos Dois Motetos, op.74, Brahms aplica à escrita do moteto princípios contrapontísticos extremamente elaborados, tendo mesmo escrito numa carta que “agora domino completamente a técnica do cânone à distância de qualquer intervalo”. No primeiro moteto – Warum ist das Licht gegeben dem Mühseligen? (“Porque é que a Luz foi concedida àquele que sofre?”) – as entradas do tema (distribuído por quatro vozes) são feitas à distância de quarta perfeita descendente, enquanto no segundo – O Heiland, reiß die Himmel auf (“Oh! Salvador, abre as portas dos Céus”) – acontecem ao uníssono e à quinta superior. Carregados de intensa expressão interior e de profunda religiosidade (a que não é alheia a leitura constante e regular que Brahms fazia da Bíblia), estes dois motetos baseiam-se em textos bíblicos ou de inspiração bíblica. O primeiro utiliza um excerto de Martinho Lutero (1483-1546) e o segundo um poema de Friedrich Spee von Langenfeld (1591-1635), um jesuíta muito considerado por Leibniz e um dos primeiros homens da Igreja a condenar e atacar a prática de torturas como forma de obter confissões.

Paulo Assis

 

 

CLAUDE DEBUSSY

Saint German en Laye, 22 de Agosto de 1862

Paris, 25 de Março de 1918

 

Trois Chansons

 

Na sua acepção mais abrangente, o termo chanson (canção) pode ser aplicado a qualquer obra vocal composta sobre um texto em língua francesa. Num sentido estrito, a aplicação do vocábulo circunscreve-se, no entanto, a um género musical específico, concretizado no repertório vocal polifónico francês que se desenvolveu, principalmente, ao longo dos séculos XV e XVI, a partir do território que hoje corresponde, aproximadamente, ao norte de França e à Bélgica. As suas origens remontam à medieval chanson de geste e à actividade musical dos trouvères e troubadours ainda em finais do século XIII, mas foi só no século XIV, com as cerca de setenta composições polifónicas de Guillaume de Machaut (c.1300-1377), que a chanson se começou a definir e afirmar enquanto género musical.

Cerca de cinco séculos mais tarde, a canção polifónica em língua francesa veio a ter em Claude Debussy um ilustríssimo perpetuador. Um dos mais marcantes músicos franceses da transição entre os séculos XIX e XX, autor de uma produção musical vasta e extremamente inovadora ao nível de géneros, timbres e harmonias, habitualmente associada com a corrente Impressionista (associação que o próprio rejeitava), Debussy, que nunca havia tido qualquer tipo de instrução formal, ingressou no Conservatório de Paris com dez anos de idade. Começou como aluno de piano, mas foi na composição que encontrou a sua verdadeira vocação, tendo conquistado, como epílogo do seu percurso académico, o prestigiado Prix de Rome, com a sua cantata L’enfant prodigue. Ao longo da carreira, Debussy debruçou-se sobre os mais variados géneros musicais, como a ópera, a música de câmara, a cantata ou o bailado. As Trois chansons (Três canções), que integram a sua escassa produção de música coral, foram compostas entre 1898 e 1908 sobre textos avulsos do príncipe-poeta Charles d’Orléans (1394-1465).

Luís Toscano

 

 

 ARVO PÄRT

Paide (Estónia), 11 de Setembro de 1935

 

Magnificat

 

O compositor estónio Arvo Pärt estudou no Conservatório de Talin com Heino Eller, tendo trabalhado como engenheiro de som na Rádio Nacional antes de se dedicar exclusivamente à composição. Pärt foi “tomado de ponta” pelo regime soviético desde que apresentou as primeiras obras influenciadas pelo modernismo do Ocidente. Uma outra obra, provocativamente intitulada Credo, eoutras obras onde afirmava a sua crença no Cristianismo, vieram a agravar essa situação.

No final dos anos 70, influenciado pelo cantochão e por música medieval, desenvolveu uma técnica pessoal de grande simplicidade, baseada nas consonâncias e dissonâncias produzidas pela combinação de melodias tonais com contramelodias de nota contra nota formadas a partir de um só acorde, maior ou menor – um estilo a que chamou “tintinnabuli” devido à sua ressonância aparentada com o som de sinos. Em 1980, Pärt emigrou para Berlim Ocidental, onde ainda reside. O seu Magnificat foi escrito em 1989 para o Coro da Catedral de Berlim.

O Hino de louvor à Virgem Maria, após a Anunciação, cântico comum ao culto Católico e Protestante, é cantado com um ritmo flexível reflectindo a acentuação natural do texto em latim. A textura muda em cada linha; a textura principal é a duas vozes, com a voz superior (geralmente num solo de soprano) numa nota fixa; mas outras partes são cantadas com intervalos de oitava e a três ou quatro vozes, com progressões de acordes frequentemente dobradas à oitava, criando um som mais rico mas sem complexidade; esta unanimidade dos acordes é quebrada nas palavras “dispersit superbos” e “et divites dimisit inanes”. No entanto, como o próprio Paul Hillier afirma numas notas que escreveu para um CD da Harmonia Mundi onde gravou o Magnificat: “É possível analisar esta obra mas é impossível explicar porque é que o seu resultado é tão maravilhoso.”

 

Nunc Dimittis

 

O Nunc dimittis, a canção do velho Simão quando vê o pequeno Jesus (segundo o Evangelho de São Lucas), faz parte, juntamente com o Magnificat, dos cânticos da “Evensong” da Igreja de Inglaterra (Church of England). E foi para a transmissão em directo de uma dessas cerimónias, na St. Mary’s Episcopal Cathedral, realizada no âmbito do Festival Internacional de Edimburgo em 2001, que Arvo Pärt escreveu esta obra sobre o texto em latim. A primeira e a última secção podem ser consideradas contrapontísticas no contexto da obra de Pärt, com as suas melodias a passar de voz em voz sobre notas sustentadas; há mesmo um bocadinho de estilo imitativo no final da primeira secção, sobre as palavras “secundum verbum tuum”. A secção central, sendo cantada numa métrica flexível como o Magnificat, sofre mudanças de textura mais rápidas resultantes das mudanças entre uma linha e acordes a três vozes que criam harmonias radiantes, dobradas à oitava na palavra “lumen” (“luz”). Como afirma Paul Hillier: “Pärt ainda utiliza as mesmas técnicas que criou em 1976, mas… acrescentou-lhes uma grande riqueza de novas cores e texturas.”

Anthony Burton

 

 

GALINA GRIGORJEVA

Simferopol (Ucrânia), 2 de Dezembro de 1962

 

Ao partir

 

Galina Grigorjeva nasceu na Ucrânia e estudou nos conservatórios de Odessa e São Petersburgo. Depois do seu casamento, com um estónio, mudou-se para Talin, onde estudou com Lepo Sumera. Desde então, vive na Estónia. O seu Ao partir, escrito em 1999, tem por base a Liturgia Ortodoxa Russa: após a oração inicial, as duas secções que se seguem são “Cânones sobre a separação da alma do corpo” e as duas últimas sobre “Após a alma deixar o corpo”.

“Enquanto trabalhava na obra”, escreveu Grigorjeva, “tomei contacto com a tradição russa do canto polifónico, em vigor entre os séculos XV e XVII, e com várias formas de poesia sacra. Considerei extraordinárias a dissonância natural e a organização rítmica quase impenetrável da polifonia heterofónica. São estes elementos que, para mim, distinguem o carácter da música nacional.” A escrita a oito vozes, maioritariamente em acordes paralelos e numa métrica flexível, pertencem claramente à tradição ortodoxa; mas há outras características que tornam esta obra imprópria para uso litúrgico. Em contradição com a proibição ortodoxa de usar instrumentos, a segunda secção inclui, para além de um solo de tenor, três triângulos e uma flauta – esta última tocando uma parte semi-improvisada e ligeiramente descoordenada em relação ao coro, supostamente representando a alma a deixar o corpo. A terceira secção inclui duas estrofes declamadas simultaneamente pelos tenores e baixos. Esta secção de cor escura é dissipada pela calma oração de sopranos, contraltos e tenores que se segue; e a obra termina com uma secção mais variada na sua textura e dinâmica, construindo um clímax fortissimo mas terminando com um tranquilo “Aleluia”.

Anthony Burton

 

 

FERNANDO LOPES-GRAÇA

Tomar, 17 de Dezembro de 1906

Parede, 27 de Novembro de 1994

 

Três Canções Corais

 

Nascido na cidade de Tomar, onde iniciou os seus estudos musicais, Fernando Lopes-Graça ingressou, com a idade de dezassete anos, no Conservatório de Lisboa. Aqui, completou o Curso Superior de Composição, durante o qual teve como mestres Vianna da Motta, Tomás Borba e Luís de Freitas Branco. Durante este período, foi também aluno da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que abandonou em 1931, numa de várias atitudes de protesto político contra o regime ditatorial que vigorava em Portugal, pelas quais veio a ser perseguido e encarcerado por diversas vezes. Partiu em 1937 para Paris, cidade onde permaneceu durante dois anos, aí aprofundando os seus estudos em composição e musicologia. Datam deste período as suas primeiras harmonizações de canções populares portuguesas, que viriam a ter uma influência central e decisiva em toda a sua longa carreira. De facto, Lopes-Graça principiou aqui a sua orientação para uma linha estética de raiz folclorista, que reflectia influências de Béla Bártok, Zoltán Kodály ou Manuel de Falla. As obras subsequentes são marcadas pela assimilação e incorporação de material harmónico, melódico e rítmico proveniente do universo da música popular portuguesa – ou da “música rústica” portuguesa, nos termos de Mário Vieira de Carvalho. Ao longo da década que sucedeu o retorno a Portugal, a actividade de Fernando Lopes-Graça foi sendo cada vez mais influenciada pelo seu vínculo político contrário ao regime de Salazar. A este respeito, as Três Canções Corais são paradigmáticas: compostas em 1946 sobre textos de José Gomes Ferreira, João José Cochofel e Carlos de Oliveira, podem ser enquadradas no movimento oposicionista de matriz neo-realista concretizado pela geração do “Novo Cancioneiro”.

Luís Toscano

 

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