27 OUTUBRO 21h30 | FAIAL | Teatro Faialense

28 OUTUBRO | TERCEIRA | Centro Cultural e de Congressos de Angra do Heroísmo

29 OUTUBRO 21h30 | S. MIGUEL | Teatro Ribeiragrandense

RECITAL DE 
CLARINETE E PIANO

 

Carlos Alves, clarinete

Caio Pagano, piano

 

 

 

 Programa

 

I

 

A. Berg
Quatro Peças para Clarinete e Piano op. 5
I. Massig
II. Sehr langsam
III. Ser rasch
IV. Langsam


 

J. Brahms
Sonata para Clarinete e Piano op.120 n.º1
Allegro appassionato
Andante, un poco adagio
Allegretto grazioso
Vivace

 

 

II

 

C. Debussy
Primeira Rapsódia para Clarinete e Piano

 

 

F. Poulenc
Sonata para Clarinete e Piano
Allegro tristamente (Allegretto - Très calme - Tempo allegretto)
Romanza (Très calme)
Allegro con fuoco (Très animé)

 

 

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CARLOS ALVES

Carlos Piçarra Alves é licenciado em Clarinete pela ESMAE, na classe do Prof. António Saiote e Prix de Perfectionement á Unanimité du júri au Conservatoire Superior de Region de Versailles na classe do Prof. Philipe Cuper (Super Solista da Ópera de Paris). Actualmente é doutorando na Universidade de Aveiro e Solista-A na Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música. Foi laureado nos mais importantes concursos nacionais, como o 1.º Prémio no Prémio Jovens Músicos, 1.º Prémio Juventude Musical Portuguesa e 1.º Prémio no Concurso do Festival Internacional Costa Verde. Apresenta-se regularmente em concerto um pouco por toda a Europa, E.U.A., Rússia, Macau, entre outros. Já realizou várias gravações, nomeadamente para a EMI Classics e mais recentemente para a etiqueta americana Soundset, onde gravou com o pianista Caio Pagano.

 

CAIO PAGANO

Caio Pagano nasceu em São Paulo, onde estudou na Escola Magda Tagliaferro, com Lina Pires de Campos. Prosseguiu os seus estudos na Alemanha com Conrad Hansen e mais tarde com Helena Costa, Karl Engel e Sandor Végh. Foi vencedor do Concurso Eldorado (1962) e do Concurso Internacional Beethoven (1970, Portugal). Desde 1986 que é professor na Universidade Estatal do Arizona, tendo atingindo o topo de carreira como docente. Já se apresentou em concerto nos quatro continentes, tendo realizado mais de 900 concertos, onde estreou 36 obras das quais 25 lhe foram dedicadas. Já gravou para várias etiquetas como a Deutsche Grammophon, Soundset, Glissando, entre outras. Recentemente foi nomeado “Professor do Ano” (2010) na Universidade Estatal do Arizona.

O clarinete moderno, inventado entre 1700 e 1707, só passou a ter uma utilização alargada na música erudita a partir de meados do século XVIII. Mozart foi dos primeiros compositores a dar-lhe um lugar destacado na história, ao escrever para o instrumento várias obras das quais se destacaram o concerto em lá maior e o quinteto com clarinete. Durante o século  XIX a presença do clarinete torna-se mais preponderante, com uma presença definitiva na orquestra, figurando na música de câmara e também como instrumento solista. De entre as obras do recital de hoje, contam-se alguns dos compositores que mais se destacaram na escrita para este instrumento.

 

Alban Berg, compositor austríaco (1885-1935), foi, com Anton Webern, aluno de Arnold Schoenberg. O ensino deste último foi de tal maneira marcante, que a sua acção como professor dos vários alunos que o procuraram e, muito em particular, a sua associação aos discípulos acima referidos ficou conhecida como a “segunda escola de Viena”.
Apesar da ligação fortíssima que manteve durante anos com o mestre e o colega Anton Webern, Alban Berg desenvolveu uma linguagem musical muito própria, deixando obras cruciais no domínio dramático, como foram as suas óperas Wozzeck (1917-1922) e Lulu (1929-1935), a Suite Lírica (1928), no domínio instrumental, e vários Lieder. A obra Quatro Peças para Clarinete e Piano op. 5, de 1913, reflecte um tipo de escrita em que o compositor reduz ao extremo os meios musicais. Trata-se de peças miniaturais em que o material musical é gerado a partir de pequenas células, formando o conjunto como que um ciclo de pequenos Lieder, em que se destaca uma grande liberdade métrica, uma textura marcadamente contrapontística e o tratamento das intensidades como se de uma série se tratasse.

 

Johannes Brahms (1833-1897), quando compôs a sonata para clarinete e piano op. 120 no. 1, em 1894, já era reconhecido como uma figura cimeira da composição quer na Alemanha quer internacionalmente. No que respeita à música de câmara, e depois da morte de Schumann em 1856, o compositor contribuiu para o renascimento do género, escrevendo um total de 24 obras, possivelmente a produção mais significativa depois de Beethoven. As obras que dedica ao clarinete, —um  trio, um quinteto e duas sonatas — foram inspiradas no clarinetista Richard Mühlfeld, músico da orquestra da corte de Meiningen que o compositor muito admirava.  O primeiro andamento desta obra baseia-se na estrutura tripartida da forma-sonata, tratando Brahms as diferentes secções com uma grande fluidez. Após uma longa introdução segue-se a primeira secção que contém meia dúzia de temas pouco contrastantes entre si, os quais se voltarão a ouvir pela mesma ordem após o curto desenvolvimento. O segundo andamento faz perpassar um lirismo muito contido e quase abstracto por uma estrutura ternária, em que a primeira e a terceira parte se apresentam com uma grande simetria. O terceiro andamento assenta igualmente numa estrutura tripartida muito livre. O quarto e último andamento é o único com carácter mais extrovertido e jocoso. Tem a forma de um rondó  tratado igualmente com muita liberdade.

 

A primeira rapsódia para clarinete e piano, concluída em 1910, surge num período intensivo de viagens de Claude Debussy (1862-1918) pela Europa, enquanto maestro, numa altura em que se declaram os primeiros sintomas da doença que o havia de vitimar e, simultaneamente, quando obras suas, como La Mer e Prélude à l’après-midi d’un faune conhecem finalmente o sucesso. É também nesta altura que o director do Conservatório de Paris, Gabriel Fauré, o convida para integrar o Conselho Superior do Conservatório de Paris e, nessa função, deverá escrever duas peças para clarinete para os exames do ano seguinte. A obra do presente recital revela toda a mestria que o examinando deverá demonstrar e obterá uma recepção tão favorável que levará o compositor a orquestrá-la um ano depois.

 

Francis Poulenc (1899-1963) foi um compositor francês que, com outros compatriotas (Honegger, Milhaud, Auric, Durey e Tailleferre), pertenceu ao que ficou conhecido como “grupo dos seis”, embora estes músicos partilhassem de ideias musicais muito distintas. O que levou a esta designação, introduzida por um crítico francês em 1920, foi o facto de se conhecerem e de obras suas aparecerem nos mesmos programas, o que conveio particularmente bem a Jean Cocteau que pretendia assumir o papel de mentor do grupo. No opúsculo Le coq et l’Arlequin, Cocteau opunha-se à influência de Wagner na música francesa e dava como modelo Eric Satie. Ao mesmo tempo incitava os compositores a seguir o exemplo dos músicos do passado, em particular Couperin e Rameau, apontando-lhes traços, a seu ver essenciais, como a clareza e a simplicidade. A música de Poulenc reflecte o espírito da época, ou a necessidade de criação de uma música mais próxima do público, por oposição às tendências modernistas do princípio do século. A sonata para violoncelo e piano, de 1962, dedicada à memória de Honegger, é disso exemplo no que respeita às sonoridades criadas, que evocam ambientes populares como o do café-concerto ou do circo. Na linguagem musical utilizada combina ritmos simétricos com ritmos assimétricos, dá destaque à linha melódica com toda a sua pureza e lirismo, faz uso de harmonias baseadas em acordes de três sons com escasso recurso aos cromatismos, mas, simultaneamente, recorre a modulações pouco canónicas, conseguindo, no todo, uma articulação engenhosa entre os recursos técnicos mais tradicionais e os mais modernos.

Maria José Artiaga

 

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