16 OUTUBRO 21h30 | S. MIGUEL | Teatro Micaelense

17 OUTUBRO 21h30 | TERCEIRA | Palácio dos Capitães-Generais

 

 

Recital de PIANO

Hinrich Alpers, piano

 

 

 

 Programa

 

 

I

 

R. Schumann
Cenas Infantis
Vom fremden Ländern und Menschen (Dos povos e terras distantes)
Kuriose Geschichte (Uma história curiosa)
Hasche-Mann (Cabra-cega)
Bittendes Kind (Criança Suplicante)
Glückes genug (Completamente Feliz)
Wichtige Begebenheit (Grande acontecimento)
Träumerei (A sonhar)
Am Kamin (À lareira)
Ritter vom Steckenpferd (Cavaleiro do cavalo de pau)
Fast zu ernst (Quase demasiado sério)
Fürchtenmachen (Assustador)
Kind im Einschlummern (Criança a adormecer)
Der Dichter spricht (O poeta fala)

 

L. van Beethoven
Sonata para piano nº. 31, op. 110

Moderato cantabile molto espressivo
Allegro molto
Adagio ma non tropo – Fuga (Allegro ma non troppo)

 

II

 

A. Schönberg
Seis pequenas peças para piano op. 19

 

F. Liszt
Sonata em Si Menor

 

 

 

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HINRICH ALPERS

Hinrich Alpers estudou com Bernd Goetzke na Escola Superior de Música e Teatro de Hannover e terminou a pós-graduação na Julliard School na classe de Jerome Lowenthal. Já se apresentou em concerto um pouco por toda a Europa, E.U.A. e Canadá, e foi vencedor de vários concursos internacionais, nomeadamente o Concurso «Grieg» (2004) em Oslo, o Concurso Internacional de Piano «Gina Bachaeur» (2006) na cidade de Salt Lake e o Concurso Internacional «Telekom Beethoven» (2009) em Bona. Para além das importantes salas onde se tem apresentado como a Filarmónica de Berlim, a Konzerthaus em Viena, o Centro Cultural Gasteig em Munique, foi aclamado no Carnegie Hall, em 2008, e não ficando indiferente à crítica, no New York Sun foi distinguido com a seguinte frase: «Músico do mais alto calibre. Fiquem com este nome na memória: Hinrich Alpers».

As Cenas Infantis (1838) são um conjunto de 13 peças para piano, escritas no mesmo ano em que Robert Schumann (1810-1856) compôs outros ciclos para o mesmo instrumento como Novelletten op. 21 e Kreisleriana op.16. Trata-se de uma série de peças miniaturais que, ao contrário do que o nome sugere, não se destinam às crianças. Tal como o compositor sublinhou na época, são “reflexões de um adulto para outros adultos”, tendo como possíveis protagonistas o próprio autor e a pianista e compositora Clara Schumann, de quem então se encontrava noivo, sugerindo com elas aludir a uma inocência perdida, ganha de novo na alegria infantil da futura união, depois da inicial proibição que tinha sido imposta por Friedrich Wieck, pai de Clara e ex-professor de piano do compositor.
Quer nestes ciclos para piano, quer noutros para o mesmo instrumento, Schumann ensaia já os meios que deverão dar um sentido de unidade e coerência aos ciclos de canções que comporá mais tarde. Um desses meios será a utilização de um motivo logo na primeira primeira peça que servirá de união a todas elas. É o que se passa com o motivo da primeira peça das Cenas Infantis que irá estabelecer uma relação com as restantes.

 

A sonata op. 110 em lá bemol maior de Ludwig van Beethoven (1770-1827) é a penúltima de trinta e duas que escreveu para piano. O ano de 1821, em que começou a compor esta sonata, foi o mesmo de algumas das suas obras maiores como a última sonata para piano op. 111 e a Missa em ré. No ano seguinte começaria a escrever a nona sinfonia. Durante esse período lutou com problemas de saúde aos quais se seguiram problemas financeiros, o que não abalou o seu ritmo de escrita. A presente sonata é composta por três andamentos os quais se sucedem sem interrupção. O primeiro segue a estrutura da forma-sonata, iniciando-se com um tema que, mal se inicia, é interrompido criando alguma expectativa. O segundo andamento, em compasso binário, é um Scherzo com trio, marcado por ritmos sincopados logo após a repetição da primeira frase, por contratempos no acompanhamento da melodia na secção intermédia e por dinâmicas muito contrastantes. Apesar da instabilidade rítmica que o caracteriza, representa um momento de alguma leveza entre o primeiro e o último de grande intensidade. Este começa de um modo sombrio com uma breve introdução muito modulante à qual se segue uma frase em recitativo, sucedendo-lhe uma parte mais lírica, a que Beethoven chamou lamento. Em seguida, começa uma fuga, escrita num estrito contraponto a três vozes, sobre as notas iniciais do 1º andamento. Volta-se a ouvir o arioso e acaba novamente com a fuga, agora com o tema invertido.

 

As seis pequenas peças para piano do compositor austríaco Arnold Schoenberg (1874-1951) surgem numa fase da sua produção entre o afastamento da tonalidade, o que se chamou o período atonal do compositor, e uma nova base de composição baseada na escala cromática mediante determinadas regras, a que se chamou dodecafonismo. Esta obra é de 1911, o mesmo ano em que publicou o seu Tratado de Harmonia. Segundo o autor, a brevidade das peças, algumas totalizando 9 compassos, está intimamente relacionada com a máxima intensidade de expressão. Todo o material musical decorre do trabalho motívico a partir de uma simples célula, tornando conciliáveis elementos que à partida não o seriam, o que lhe confere uma grande novidade de expressão.

 

A sonata em si menor de Franz Liszt (1811-1886) constitui uma das obras mais originais do século XIX. Foi dedicada a Robert Schumann que, por sua vez, já tinha dedicado a Liszt a sua Fantasia em dó maior. É difícil de imaginar como uma obra tão complexa como esta foi escrita num ano (1853) em que o compositor teve de gerir simultaneamente uma intensa actividade de maestro, uma agitada vida emocional, provocada pela relação com a princesa de Sayn-Wittgenstein que acabava de conseguir a anulação do seu anterior casamento. O género sonata constituía um problema para os compositores que queriam escrever algo mais do que o que já tinha sido feito por Beethoven. O contributo de Liszt nesta sonata reside em unir, simultaneamente, os quatro andamentos e a estrutura que se designa por forma-sonata, composta por três secções (exposição, desenvolvimento e reexposição), num único andamento. A experiência adquirida no trabalho temático e motívico dos seus poemas sinfónicos encontra nesta obra um terreno propício à liberdade de invenção, a partir de uma estrutura elaborada de forma refinada e audaciosa, cujo resultado só terá repercussões 50 anos mais tarde com Arnold Schoenberg na sua Sinfonia de Câmara.

Maria José Artiaga

 

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