2 SET 21h30 | S. JORGE | Auditório Municipal de Velas
4 SET 21h30 | FAIAL | Teatro Faialense
Recital de Canto e Piano
Sandra Medeiros, soprano
Francisco Sassetti, piano
Programa
I
Nicolau de Albuquerque Ferreira
João Maria Sequeira
Octávio Rodrigues
José Viana da Mota
Ernesto Halffter
|
II
Eurico Carrapatoso
Fernando Lopes Graça
Carlos Marecos
Rogério Medeiros
Sérgio Azevedo
I. Charamba 1
|
SANDRA MEDEIROS
Nascida em São Miguel (Açores), estudou no Conservatório Regional de Ponta Delgada, sob a orientação de Imaculada Pacheco. É licenciada em Canto pela Escola Superior de Música de Lisboa, tendo integrado a classe de Joana Silva. Como bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian e do Centro Nacional de Cultura prosseguiu estudos de pós-graduação com Julie Kennard e Clara Taylor na Royal Academy of Music (RAM) em Londres, onde se graduou com «Distinção», obteve o Diploma RAM e conquistou o Amanda von Lob memorial Prize. Frequentou cursos de aperfeiçoamento em Portugal, Áustria, Espanha e Inglaterra com Ileana Cotrubas, Teresa Berganza, Gundula Janowitz, Christiana Eda-Pierre, Rudolf Knoll, Liliana Bizineche, Marimi del Pozo, Richard Miller, Jill Feldman, Paul Esswood, Udo Reinemann, John Streets, Teresa Cahill, Paul Kiesgen, Rudolf Jansen, Robert Tear e Martin Isepp. Foi premiada em concursos nacionais e internacionais e já se fez ouvir em Portugal e no estrangeiro. A sua actividade como solista distribui-se pela música antiga, oratório, Lied, Mélodie, canção dos séculos XX e XXI e ópera, havendo já actuado sob a direcção de ilustres maestros tais como Michael Corboz, Marc Minkowski, Charles Mackerras, Laurence Cummings, Alberto Lysy, Lawrence Foster, Olivier Cuendet, José Ramón Encinar, Giancarlo de Lorenzo, Karl Martin, entre outros. Também actuou com as mais destacadas orquestras portuguesas e com as orquestras Barroca da RAM, Camerata Lysy de Gstaad e Sinfonia de Varsóvia. Gravou para a RTP, RTP-Açores, RTPI e RDP (Antena 2). Tem participado nos principais festivais de música do País e nos de Macau, Plasencia (Espanha), London Bach Festival e Brancaster Midsummer Music Festival (Inglaterra). Cantou ainda na Expo 98 (Lisboa), Expo An Meer 2000 (Alemanha) e no CCB na Festa da Música 2006.
FRANCISCO SASSETTI
Natural de Lisboa, iniciou os seus estudos musicais com Maria Fernanda Costa. Estudou ainda com Dinorah Leitão e Tania Achot. Na Universidade de Cincinnati, na classe de Eugene Pridonoff, obteve em 2005 o mestrado em «Piano Performance». Iniciou a carreira de concertista em 1998, em Lisboa, no Teatro de São Luiz, e desde então já se apresentou por todo o País e ainda em Espanha, França, Bélgica, EUA e Uruguai. Tem, nos últimos anos, colaborado com a Fundação Calouste Gulbenkian em diversos recitais para crianças como músico-actor, e gravou, com a cantora alemã Ute Lemper, para o filme Aurelien. Mais recentemente, com Maria João, gravou um disco com música de Emanuel Andrade. Francisco Sassetti é, actualmente, pianista acompanhador da Escola Superior de Música de Lisboa e da Academia Nacional Superior de Orquestra.
A canção do tipo erudito, e com as características do género que veio a dominar a Europa durante o século XIX, surge tardiamente em Portugal, se se pensar no desenvolvimento que o Lied teve na Alemanha a partir de Schubert ou na evolução da Mélodie em França a partir de Berlioz.
O género musical por excelência em Portugal era a ópera, levando a que os compositores, para serem reconhecidos e aceites pelo público, lhe dedicassem as suas obras. Nos salões, contudo, cantava-se, com acompanhamento ao piano ou à guitarra, canções de carácter popular ou de influência operática.
Só a partir do final do século XIX é que se assiste ao interesse em desenvolver um género musical erudito com características semelhantes às do Lied mas de feição essencialmente portuguesa.
Nicolau de Albuquerque Ferreira, João Maria Sequeira e Octávio Rodrigues (Ponta Delgada, 1879 - São Paulo, ?), músicos dos quais, até ao momento, pouco ou nada se sabe, compuseram para consumo do salão aristocrático ou burguês as obras ao estilo romança que se vão ouvir. As três canções do primeiro compositor fazem parte de uma colectânea publicada em 1928 sob o título Cantares, com versos de António Botto (1897-1959). A canção Serenata, de João Maria Sequeira com poema de Antero de Quental, tem características semelhantes às anteriores, com um acompanhamento simples ao piano em que a mão direita se limita a dobrar a parte do canto.
Um dos primeiros cultores da canção erudita foi José Viana da Mota (1868-1948) que compôs Lieder quando ainda se encontrava na Alemanha. Os primeiros datam de 1885 e foram escritos sobre textos de poetas alemães, como Goethe e Eischendorff. O primeiro ciclo de canções portuguesas foi escrito entre 1893 e 1895. Neste ciclo, a primeira canção é de origem popular, as restantes têm poemas de Almeida Garrett, João de Deus e Guerra Junqueiro, do qual se ouvirá Canção Perdida. A escolha de melodias de carácter popular, assim como a de poetas portugueses, deixa entrever a vontade do pianista e compositor de criar um género semelhante ao da canção alemã mas de cariz português, num período em que as ideias nacionalistas estavam na ordem do dia. As canções que se vão ouvir distanciam-se das dos autores anteriores no tratamento musical mais elaborado dado ao acompanhamento do piano, de que é exemplo a Canção Perdida. A primeira, A Estrela, com poema de Almeida Garrett, segue um estilo mais simples.
A inclusão do compositor espanhol Ernesto Halffter (1905-1989) justifica-se neste recital pelas canções dedicadas a Portugal, em particular, o Fado e Gerinaldo, um romance popular integrado no ciclo Seis Canciones Populares Portuguesas. Halffter, casado com uma pianista portuguesa, Alice Câmara Santos, fixou residência em Portugal em 1936. A este aluno dilecto de Manuel Falla se deve, para além deste ciclo de canções, a Rapsódia Portuguesa para piano e orquestra.
Fernando Lopes Graça (1906-1994) foi um vulto maior não só da música portuguesa como do presente género musical para o qual compôs cerca de 250 canções. Figura perseguida pelo Estado Novo, foi como pianista intérprete das suas canções que ganhou uma parte do seu sustento. A sua relação com o repertório vocal verificou-se igualmente como maestro do coro da Academia de Amadores de Música para o qual escreveu muitas obras. Ao seu relacionamento intenso com o canto, deve-se acrescentar a relação que manteve durante toda a sua vida com a literatura — quer como autor de numerosos ensaios, quer como tradutor, quer na relação com os escritores do seu tempo. Todos estes factores contribuíram, decerto, para que dominasse profundamente a técnica vocal e conhecesse as potencialidades expressivas do canto. As obras que se vão ouvir são arranjos de toadas açorianas. Ambas se encontram inseridas nas diversas compilações que organizou sob o título Canções Regionais Portuguesas. A primeira é originária de S. Jorge, enquanto a segunda é da Terceira. Nestas, o compositor está mais interessado em acentuar a "rudeza" da origem, como se pode verificar no acompanhamento ao piano de Eu fui à terra do Bravo, do que na pintura sonora do conteúdo.
À excepção de Lopes Graça, os restantes autores da segunda metade do programa fazem parte da nova geração de compositores portugueses nascidos entre 1962 (Eurico Carrapatoso) e 1979 (Rogério Medeiros). A importância que estes músicos e outros da sua geração dão hoje à canção popular revela o potencial que este repertório ainda desperta e as múltiplas ideias musicais que ele lhes suscita desde a escrita mais diatónica de Eurico Carrapatoso à linguagem mais singular de Carlos Marecos.
Maria José Artiaga


